Há 95 anos, bombas caíam sobre São Paulo e arrasavam a cidade:roulette

Crédito, Acervo Carlos Cornejo
O númeroroulettemortos e feridos, tanto militares como civis, são imprecisos e até as consequências políticas, econômicas e sociais do episódioroulette1924 dividem os estudiosos.

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Enquanto alguns livros falamroulettecercaroulette500 mortos durante os 23 diasroulettecombate nas ruasrouletteSão Paulo, parte deles civis, outros estimamroulette800 os óbitos eroulettepelo menos 5 mil os feridos. Até o termo "revolução" não é consenso e alguns historiadores preferem chamar o episódioroulettemotim ou levante, já que começou com militares rebeldes sem uma estratégia clara e precisa para atingir seus objetivos.
"Em comparação com a Revoluçãoroulette1932, ou mesmo aroulette1930, a Revoluçãoroulette1924 é bem menos conhecida. Isso causa estranheza, porque,rouletteseu curso, os 'tenentes' revolucionários ocuparam São Paulo por 23 dias e a cidade foi bombardeada por tirosroulettecanhão, disparados com imperícia e que resultaramroulettemuitas mortes e destruição", afirma o historiador Boris Fausto, professor livre-docente da UniversidaderouletteSão Paulo (USP) e autorroulettelivros como A Revoluçãoroulette1930 - historiografia e história (Companhia das Letras), História do Brasil (Edusp) e Getulio Vargas - O Poder e o Sorriso (Companhia das Letras).
"Além disso, as consequências da Revoluçãoroulette1924 foram menores do que asroulette1930 e 1932. Cabe lembrar que a ascensãorouletteGetúlio Vargas ao poder,roulette1930, representou o fim da república oligárquica e o levanterouletteSão Paulo,roulette32, foi um acontecimentorouletteque o Estado mais importante da federação levantou-seroulettearmas contra o poder central", completa Fausto.
O que todos concordam é que a maior prejudicada foi a população civil, que sofreu, e muito, naquele mêsroulettejulhorouletteinverno particularmente rigorosorouletteSão Paulo, com temperaturasroulettetorno dos 5°C, o que piorou ainda mais a situação das pessoas completamente desamparadas.

Crédito, Acervo Carlos Cornejo
Pelo menos 1.500 edificaçõesroulettetoda a capital foram destruídas, o comércio foi saqueado, os hospitais não davam contaroulettetantos feridos, o abastecimentorouletteágua e luz foi prejudicado e quem pode fugiu da cidade, inclusive o governador do EstadorouletteSão Paulo na época, CarlosrouletteCampos, que se refugiourouletteum vagãoroulettetrem na região da Penha, zona leste, onde instalou o seu governo.
Dos cercaroulette700 mil habitantes na época, pelo menos um terço deixou a cidade, principalmente a elite. Aos que ficaram, restou enfrentar um períodorouletteguerra sem ao menos saber direito o que estava acontecendo, tamanha a faltarouletteinformação.
Principais meiosroulettecomunicação da época, os jornais impressos que conseguiam circular - muitos não tinham funcionários para produzi-los - traziam notícias do flagelo diário enfrentado pela população: fiosroulettebondes arrebentados e eletrificados ficavam espalhados pelo chão, assim como osrouletteenergia elétrica e telégrafo.
Na Estação da Luz, os trens saíam apinhadosroulettepassageiros que fugiam rumo ao interior do Estado.

Crédito, Acervo Carlos Cornejo
Em São Carlos (SP), foram montados abrigos públicos para acolher as dezenasrouletterefugiados que chegavam diariamenterouletteSão Paulo e não tinham onde ficar, conforme registradoroulettejornais da época.
As raízes da revolta, liderada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, estavam no movimento tenentista ocorrido dois anos antes, no RiorouletteJaneiro. Na ocasião, 17 militares e um civil foram mortos por forças oficiais após marcharem pela Avenida Atlântica pedindo a deposição do presidente da República.
O episódio ficou conhecido como Revolta dos 18 do ForterouletteCopacabana e marcou o início do movimento tenentista, que lutava por questões como melhores salários, valorização dos militares, eleições livres, liberdaderouletteimprensa e diminuição do poder das oligarquias agrárias da República Velha.

Crédito, Bombas sobre São Paulo / Reprodução
Até a data escolhida para o levanterouletteSão Paulo era a mesma do massacrerouletteCopacabana: 5roulettejulho.
O curioso é que o objetivo inicial dos tenentistas passava longerouletteum conflito armadorouletteSão Paulo. A ideia era apenas organizar o movimento rebelde na cidade, que se consolidava como um próspero centro industrial e econômico e possuía uma localização estratégica, já que era um entroncamento importanteroulettediversas ferrovias que interligavam o país.
AlémrouletteIsidoro, tiveram papelroulettedestaque no movimento revolucionário os tenentes Juarez Távora, João Cabanas e Eduardo Gomes.
Após ações rápidas para tomar a área urbana e conquistar a adesãoroulettemilitares nos quartéis locais do Exército e da Força Pública (atual Polícia Militar), o plano dos rebeldes era reunir-se com outras frentes formadasrouletteoutros Estados e todos partiriam para o RiorouletteJaneiro.
Na capital federal dariam um golpe para derrubar o presidente Arthur Bernardes, cujo governo era marcado pelo autoritarismo, instabilidade política (a maior parte do governo foi com o país sob estadoroulettesítio) e sustentado pelos interesses das elites agrárias mineira e paulista, que se revezavam no poder durante o período conhecido como "república do café com leite".

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Os revolucionários não contavam, porém, com a rápida reaçãoroulettemilitares legalistas alocados na cidade e reforçosrouletteoutros Estados enviados rapidamente pelo governo federal. Além disso, não estavam preparados estrategicamente para um conflito bélicoroulettegrandes proporções.
"O movimento revolucionário era muito improvisado, não havia uma estratégia clararoulettecombate e ocorreram diversas trapalhadas no decorrer do caminho", explica a historiadora Ilka Stern Cohen, autora do livro Bombas Sobre São Paulo-A Revoluçãoroulette1924 (Editora Unesp).
O resultado foi uma guerra generalizada pelas ruas da capital paulista. Assentados no CamporouletteMarte, os rebeldes atiravamroulettedireção ao Palácio dos Campos Elíseos, residência do governo estadual. As bombas dos canhões, porém, atingiam alvos civis, como o Lyceu Salesiano, tradicional internato localizado no Largo CoraçãorouletteJesus, na região da Luz.
Apesar do estrago, felizmente apenas dois alunos ficaram levemente feridos. Trincheiras eram abertasrouletteruas da região central e diversos bairros, como Mooca, Perdizes e Brás. O Jardim da Luz transformou-serouletteuma grande prisão.

Crédito, Bombas sobre São Paulo / Reprodução
Enquanto os revolucionários tentavam assumir o controlerouletteposições estratégicas, como a sede dos telégrafos e quartel dos bombeiros, todos na região central, as forças legalistas cercavam toda a periferia e avançavam pelas ruas e bairros centrais para sufocar as tropas rebeldes.
A desproporçãorouletteforças era clara: enquanto o exército revolucionário contava com cercaroulettesete mil combatentes, as tropas federais do Exército e da Marinha mobilizaram 18 mil homens.
"Nem os bairros mais elegantes, como Campos Elíseos, Higienópolis, Cerqueira César e Santa Ifigênia foram poupados das bombas, emboraroulettemenor proporção do que os bairros operários, como Mooca, Brás e Ipiranga", diz a professora Ilka, apontando para um foto que mostra os estragosrouletteresidências na rua Augusta.

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"É um erro achar que apenas os bairros pobres foram atingidos. A cidade inteira foi bombardeada", completa a historiadora, cujo livro foca os efeitos da guerra urbana sobre a população.
"Foi um bombardeio terrificante, igual ao usado pelos alemães contra os belgas na Primeira Guerra Mundial. Trata-se da maior batalha urbana na América Latina", diz o jornalista e pesquisador Moacir Assunção, autor do livro São Paulo Deve Ser Destruída: A História do Bombardeio à Capital na Revoltaroulette1924.
Segundo ele, um balanço posterior da prefeitura estimourouletteUS$ 300 milhões os prejuízos à cidade por causa da guerra. Fábricas famosas, como o Cotonifício Crespi, a Companhia Antarctica e os biscoitos Duchen tiveram os prédios destruídos.
"Consta que os coveiros não davam contarouletteenterrar tantos cadáveres, levando seus familiares a sepultá-los nos quintaisroulettesuas próprias casas", diz Ricardo Peres, professorrouletteHistória do Colégio Presbiteriano Mackenzie.
Vencidos, cercaroulettetrês mil tenentes fugiramrouletteSão Paulo rumo ao interior e vagaram por meses até chegar ao Paraná onde,rouletteabrilroulette1925, se juntaram a outros militares rebelados gaúchos liderados por Luis Carlos Prestes. O contingente deu início à Coluna Prestes, que percorreu maisroulette25 mil quilômetros a pé por vários Estados do país.

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"Meses depois do conflito, o governo estadual lançou um projetorouletterecuperação das áreas destruídas e se conseguiram recursos para reconstruir a Igreja da Glória, no Cambuci, e outros prédios públicos e particulares afetados", diz Assunção.
Entidades como a Associação ComercialrouletteSão Paulo e o prefeito Firmiano Pinto tiveram papel importante durante todo o conflito, tentando manter uma certa ordem entre a população organizando a venda e distribuiçãoroulettegênerosrouletteprimeira necessidade e produtos como gasolina e carvão.
"O curioso é que depois eles foram repreendidos e ameaçadosrouletteprocesso pelo governo federal, que achava que eles tinham colaborado com os rebeldes, enquanto estavam apenas tentando dar um mínimorouletteorganização ao caos que se instalou na cidade", diz Ilka Cohen.
O legado do levanteroulette1924 é visto com ressalvas pelos estudiosos. Para Assunção, o movimento serviu apenas para aprofundar o estado policial e a perseguição política por parte do governo federal, que se estendeu pelos anos seguintes.

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"A maior consequência foi a repressão que, a meu ver, iniciou um estado policial no país que ganhou mais força no Estado Novo. O DepartamentorouletteOrdem Política e Social (Dops), por exemplo, foi criadoroulette1924", diz Assunção. Para a historiadora Ilka Cohen, pouco ficou como legado do movimentoroulette24.
"Foi um evento marcante na época, mas que acabou se restringindo aos acontecimentos do conflito."
De concreto, restam alguns resquícios da Revoluçãoroulette1924 na cidaderouletteSão Paulo. O principal deles é a marcaroulettetiroroulettecanhão na chaminé da antiga usinarouletteenergia elétrica no bairro da Luz, que resiste como uma lembrança solitária da guerra urbana que colocou a maior cidade do Brasilroulettejoelhos, há 95 anos.

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